A aposentadoria não é sinônimo de descanso para milhões de brasileiros com mais de 60 anos. Em muitos casos, tornou-se apenas mais uma fonte de renda, insuficiente para cobrir as despesas básicas. Com benefícios baixos que, em 60% dos casos, não passam de um salário mínimo (R$ 1.621 em 2026) – segundo o Boletim Estatístico da Previdência Social (BEPS), do Ministério da Previdência Social – e diante de um custo de vida pressionado por alimentação, moradia e saúde, cresce o número de idosos que retornam ao mercado de trabalho. Há, ainda, informalidade elevada e famílias dependentes, razão pela qual o país registra alta na participação da população 60+ na força produtiva.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o país vive um recorde histórico de participação dessa faixa etária na força de trabalho (24,4%): uma em cada quatro pessoas com 60 anos ou mais está ocupada, somando mais de 8,3 milhões de brasileiros. O avanço é tão expressivo que já altera a composição da População em Idade Ativa (PIA): hoje, um quinto dos brasileiros aptos a trabalhar pertence ao grupo 60+, com destaque para Rio de Janeiro (24,1%), Rio Grande do Sul (23,7%) e São Paulo (21,7%).
Apesar da alta participação, a inserção ocorre, em grande parte, de forma precária: segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), 53,9% dos trabalhadores dessa faixa etária estão na informalidade, índice muito superior à média nacional (37,6%). Por trás das estatísticas recordes, há uma combinação de fatores econômicos, demográficos e sociais que ajuda a explicar o fenômeno.
POR QUE OS 60+ ESTÃO VOLTANDO AO TRABALHO?
Para Antônio Leitão, especialista em Gerontologia e gerente institucional do Instituto de Longevidade (MAG), a resposta é multifatorial e essa tendência de aumento veio para ficar:
— A própria longevidade força uma vida laboral mais longa, seja por necessidade, seja por vontade.
Ele destaca que as reformas da Previdência, especialmente a de 2019, postergaram o acesso ao benefício, obrigando as pessoas a trabalharem mais tempo. Mas o fator preponderante é o econômico. Conforme o BEPS, o valor médio das aposentadorias urbanas é de R$ 1.863,38, enquanto as rurais giram em torno de R$ 1.415,06.
Adão Rocha, professor do curso de Gestão de Recursos Humanos da Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (Fadergs), corrobora sobre a insuficiência do valor:
— A gente sabe que não tem como sobreviver com esse valor. As pessoas são impelidas a procurar uma outra ocupação.
A isso, soma-se um dado relevante: os aposentados e pensionistas muitas vezes são mantenedores das famílias ou permanecem no mercado de trabalho para auxiliar parentes.
— Muitos idosos continuam trabalhando porque precisam ajudar ou querem ajudar familiares mais jovens — explica Leitão.
ENTRE A FORMALIDADE PRECARIZADA E A INFORMALIDADE
Apesar do aumento da participação, a qualidade dessa inserção é um ponto de atenção. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) Ibre aponta que, no quarto trimestre de 2024, 53,8% dos trabalhadores 60+ estavam em ocupações informais, índice superior à média nacional nas demais faixas etárias, que é de 38,6%.
Na formalidade, o setor de serviços é o grande carro-chefe, concentrando 55% desses trabalhadores, seguido pelo comércio (19%) e construção (11%).
— O setor de serviços, como trabalhadores de comércio e mercados, é o mais demandado, mas tende a ter uma remuneração mais baixa. É uma inserção de baixa qualidade — analisa Leitão.
Ele cita o exemplo clássico do operador de caixa de supermercado:
— A pessoa não necessariamente é informal, mas tem uma rotina extensa para uma remuneração relativamente baixa e é facilmente substituível.
Representantes do setor supermercadista destacam que a contratação de aposentados e pessoas mais velhas tem sido uma estratégia para enfrentar a escassez de mão de obra. Segundo o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (AGAS), Lindonor Peruzzo Júnior, as redes têm buscado esse público por apresentar maior estabilidade e compromisso com o trabalho:
— Praticamente todas as redes têm feito campanhas para atrair pessoas mais velhas, que costumam permanecer mais tempo no emprego e encaram o trabalho com responsabilidade. Além disso, essa renda complementa o orçamento familiar, e a produtividade tem sido muito boa. É uma fórmula que está dando certo — destaca.
Peruzzo Júnior afirma ainda que a reinserção de aposentados atende a uma necessidade concreta do setor, diante das dificuldades de contratação, e produz ganhos sociais e individuais:
— Não temos mão de obra suficiente para trabalhar nos supermercados, e a contratação de aposentados se tornou uma alternativa viável, pela disponibilidade e pela forma de atender o cliente. O principal ganho é ter pessoas que se sentem úteis e encontram no trabalho pós-aposentadoria mais sentido para a vida.
Fonte da notícia – Zero Hora. A reportagem completa está publicada no site GZH. Leia mais em:





