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EMPRÉSTIMO CONSIGNADO CONSOME RENDA DE APOSENTADOS

Reportagem publicada no site GZH


Na manhã de 18 de março, Teresa Maria da Silva, 63 anos, foi até uma agência do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no Centro Histórico, em Porto Alegre, pedir ajuda para desbloquear sua conta, o que atualmente só pode ser feito com biometria facial, por isso a necessidade de comparecer presencialmente a uma unidade. O motivo para ter saído de casa é o mesmo de milhares de aposentados e pensionistas no Brasil: contratar um empréstimo consignado.

Desde maio de 2025, segurados do INSS precisam desbloquear as suas contas no aplicativo Meu INSS para ter acesso a essa linha de crédito, que oferece juro menor e desconto em folha. Até então, bastava solicitar o bloqueio, se assim o quisesse. Nos últimos seis meses, os pedidos de bloqueio e desbloqueio de contas saltou 171% no Estado: de 68.059 em setembro de 2025 para 184.691 em fevereiro, segundo dados do Instituto (veja a evolução mês a mês no infográfico abaixo).

Os números do INSS correspondem tanto a solicitações de desbloqueio quanto de bloqueio de contas — mas a avaliação do órgão é de que esses pedidos são majoritariamente feitos por quem deseja contratar um consignado, uma vez que a “novidade” é o pedido de desbloqueio, o que indica a intenção de contratação. Além disso, as solicitações podem ser feitas mais de uma vez pela mesma pessoa.  

É o caso de Teresa Maria, que foi em busca da quarta linha de crédito que ela adquire em seis anos de aposentadoria. A razão, ela explica: “É para desapertar. Às vezes, eu quero comer uma fruta, um pãozinho, um leite, e não tem dinheiro. E eu preciso disso. Muitas vezes, eu passo fome por não ter um troquinho pra comprar alguma coisa pra mim”, diz a aposentada.

Sem considerar o novo consignado, que pretendia contratar, no dia em que conversou com a reportagem, restava o valor mensal de R$1.112 a Teresa, que mora com a irmã e tem parte de suas despesas custeadas por ela. A aposentada foi até o INSS acompanhada do filho Genésio Silva dos Santos, 43, ferreiro. Ele explica que o irmão sofre de esquizofrenia e necessita de medicamentos que nem sempre são acessíveis, e que o orçamento da família não é suficiente pata todas as despesas. Ele e a mãe reconhecem, contudo, que o acúmulo de empréstimos se torna um problema, quando consome um quarto do salário a renda de R$ 1.612 da aposentada.

Múltiplos contratos eleva riscos

Aposentados e pensionistas do INSS podem ser descontados em até 40% do salário (35% em empréstimos mais 5% em cartão de crédito). Não há limite para obtenção de empréstimos, desde que estejam dentro desta margem. Muitos segurados, inclusive, costumam acumular diversos contratos até atingir o máximo permitido. 

Aumento do salário mínimo elevou margens

Os dois primeiros meses de 2026 foram marcados por uma alta na busca de empréstimos, o que gerou uma sobrecarga no sistema do INSS, diz o superintendente regional do instituto, Alberto Alegre. O acúmulo de empréstimos, além de consumir a renda, eleva o risco de inadimplência. Dados do Serasa publicados em março apontam para um aumento de 54% no número de idosos com dívidas em atraso no Rio Grande do Sul — independentemente da origem —, em relação ao mesmo mês de 2025, um crescimento que acompanha a alta da inadimplência da população em geral.

Atenção ao juro abusivo

Um dos principais desafios está na forma como os empréstimos são contratados. Bancos digitais e financeiras costumam oferecer opções mais rápidas para adquirir um empréstimo do que bancos tradicionais. Por outro lado, acabam por cobrar juros mais altos.

A Defensoria Pública do Rio Grande do Sul atua para combater cobranças consideradas abusivas. O defensor Felipe Kirchner, dirigente do núcleo de defesa do consumidor de tutelas coletivas da Defensoria Pública, explica que, atualmente, não há regulação que determine limite para as cobranças, e que decisões judiciais sobre eventual ilegalidade de alguma prática baseia-se em jurisprudência. A abordagem de financeiras por meio de mensagens e ligações também é considerada abusiva e pode configurar violação de dados pessoais.

O endividamento de idosos é um problema complexo e que reflete aspectos socioeconomicos. Para Kirschner, o superendividamento na terceira idade pode ser considerado uma “pandemia”.