Associação dos Aposentados e Pensionistas de Caxias do Sul
(54) 3221-7164

aapopecs@aapopecs.com.br

Segunda a Sexta - Atendimento ao Público

Das 8h às 11h30 / 13h20 às 17h

Av. Júlio de Castilhos

1401- Sala 201

Outras notícias

O NOVO JEITO DE VIVER OS 60+

Por Angélica Banhara, jornalista – Revista Vida Simples Mês que vem faço 60 anos. E, oficialmente, serei considerada “idosa” pela Lei nº 10.741, de 2003,

Ler mais...

O NOVO JEITO DE VIVER OS 60+

Por Angélica Banhara, jornalista – Revista Vida Simples

Mês que vem faço 60 anos. E, oficialmente, serei considerada “idosa” pela Lei nº 10.741, de 2003, o Estatuto da Pessoa Idosa. Confesso: a palavra ainda não me veste bem. Não por negação, mas por desalinho mesmo. Faço tudo a pé, o que dá, sem esforço, algo como 7 mil passos por dia. Pratico ioga, musculação, hidroginástica. Trabalho como jornalista, estou cursando um MBA em Gestão de Estilo de Vida, Saúde e Longevidade e me aventurei num curso sobre gestão das emoções. Vou ao cinema com frequência, estou lendo três livros ao mesmo tempo, viajo pelo menos duas vezes por mês, adoro dançar e encaro festivais lotados no autódromo de Interlagos sem sentir que estou invadindo território alheio. Será que sou exceção? Pelo visto, não. Descobri que há um nome, ou melhor, uma sigla, para esse jeito de viver: NOLT.

NOLT vem de New Older Living Trend, algo como “nova forma de viver a maturidade”. O termo tenta dar conta de um fenômeno cada vez mais visível: pessoas que chegam aos 50, 60 anos (ou mais) sem aceitar o pacote pronto que a sociedade historicamente associou ao envelhecer. Nada de “terceira idade”, “melhor idade” ou qualquer rótulo que soe como um convite à retirada. O que esse grupo reivindica é permanência — na vida pública, no trabalho, nos afetos, na curiosidade.

Os chamados NOLT não estão interessados em simular juventude eterna. O ponto é outro: continuar em movimento. Trabalham, muitas vezes, porque querem. Estudam por desejo, não por obrigação. Aprendem novas tecnologias, experimentam outros caminhos profissionais, viajam, se cuidam, do corpo e da cabeça, sem a paranoia da perfeição. Existe uma espécie de acordo silencioso com o tempo: ele passa, claro, mas não precisa ditar o ritmo de tudo.

Lógico que não tenho a mesma energia que aos 40 anos. E tudo bem. Faço tudo em outro ritmo, com menos ansiedade e mais presença — uma coisa de cada vez. Tenho tempo e oportunidade de olhar para dentro de mim, procurar entender e respeitar meus sentimentos e emoções. Nessa fase, sou menos da noite, mais do dia e da natureza.

Há algo de leve nisso tudo. Uma recusa em abandonar o humor, a brincadeira, o prazer de rir, inclusive das próprias limitações. Como se a maturidade trouxesse menos paciência para o que não importa, mas preservasse aquilo que mantém a vida interessante. Envelhecer, nesse contexto, é procurar viver de uma maneira mais suave, sem se preocupar tanto em agradar aos outros.

O conceito de NOLT ganha força num momento em que o mundo envelhece rapidamente. Segundo projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), até 2060, mais de 25% da população brasileira (1 em cada 4 pessoas) terá 65 anos ou mais. Não se trata mais de um grupo periférico, mas de uma parcela central da sociedade, ativa, diversa, cheia de repertório.

Mas nem tudo são aplausos. O termo NOLT também provoca desconforto, e talvez seja bom que provoque. Ao tentar escapar da palavra “idoso”, não estaríamos reforçando a ideia de que envelhecer, por si só, é algo a ser disfarçado?

Críticos apontam um risco importante: o de criar um novo padrão, o do “velho jovem”, produtivo, saudável, autônomo, que nem todos conseguem (ou podem) alcançar. Em um país marcado por desigualdades profundas, essa narrativa pode invisibilizar outras velhices, mais frágeis, mais silenciosas, mais reais. Pode, ainda, alimentar uma pressão por desempenho contínuo, como se parar não fosse um direito.

Há também um efeito simbólico delicado. Quando só celebramos quem “não parece velho”, o que fazemos com a velhice que se mostra? Com as rugas, as limitações, as pausas? Criar novos nomes pode ser, no fundo, uma forma sofisticada de manter o desconforto com aquilo que é inevitável.

Talvez a questão não seja escolher entre ser ou não ser NOLT. Talvez o ponto esteja em ampliar o significado de envelhecer, sem precisar trocar de palavra para tornar algo natural mais aceitável. Reconhecer que existem muitas formas de viver essa fase: algumas mais ativas, outras mais contemplativas, algumas cheias de energia, outras mais lentas. Todas legítimas.

Gosto da ideia de autonomia prolongada. De poder escolher, na medida do possível, como viver os anos que vêm. Gosto de pensar que ainda tenho curiosidade, desejo, humor. Mas também me interessa um outro movimento: o de aceitar o envelhecer de mãos dadas com o amadurecimento, respeitando cada momento, cada fase, sem que ela venha carregada de perda ou apagamento.

Porque envelhecer, no fim das contas, é também um ato político. Ele escancara o quanto uma sociedade está (ou não) preparada para acolher seus próprios futuros. E talvez o verdadeiro desafio não seja criar novas categorias, mas garantir que nenhuma delas seja usada para esconder, hierarquizar ou excluir.